segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Just a few words...

Olá a todos!

Primeiramente quero me dirigir àqueles que leram meus dois últimos contos (o poeta e memórias sujas)... EU NÃO SOU UM PSICOPATA!!!

Brincadeirinha! devo admitir que as histórias poderiam ter finais um tanto quanto felizes, mas onde ficariam as discussões e polêmicas. Como já disse a alguns, não tenho tantos contos assim, não é meu forte literário, gosto das histórias mais longas, com mais desenvolvimento, intrigas e personagens (não necessariamente nesta ordem). Mas, convenhamos, aqui não seria o melhor local para publicação dos meus livros... pensei também em colocar poemas antigos, da minha adolescência, mas não sei se agradaria meu público anônimo e declarado (modesto eu... rs).

Fico extremamente feliz quando vejo alunos meus dizendo que estão lendo o meu blog, e surpreendem-se quando descobrem que gosto de escrever. Sempre disse, sou professor por vocação e necessidade, mas escritor pela minha essência. E descobri, que nos tempos de hoje, não podemos, em absoluto, negligenciar a tecnologia e tudo que a mesma pode nos fomentar.

Então, tentarei escrever novos contos, mas peço a todos um pouco de paciência, pois vida de professor não é nem um pouco fácil, principalmente em fim de ano letivo. E o próximo e último conto que tenho pronto é de um final "feliz" (pelo menos prometo não matar ninguém).

Agora recados que se fazem necessários aos meus leitores declarados!

No início de novembro estive no belíssimo estado de Goiás para apresentação de uma palestra e um minicurso no IFGO, campus Inhumas. Participei do II Simpoets (II Simpósio de eduação, tecnologia e sociedade), onde ministrei o minicurso "Química das Sensações" e apresentei a palestra "Química Verde". Devo ressaltar: que estrutura fantástica tem o IFGO (fiquei com uma inveja danada!). E as pessoas, todas, sem exceção, maravilhosas, que me acolheram com muito carinho e atenção. Não citarei nomes porque não lembro de todos e não quero ser injusto. Mas todos os professores e alunos foram de uma receptividade ímpar. Claro, que não poderia nunca deixar de destacar a minha amiga DANILA, que é uma anfitriã de primeira categoria (e que ninguém nunca diga o contrário)! E uma atenção também, não menos especial, ao amigos Márlon e Jonney, que tive a oportunidade de reencontrar. Enfim, foi uma semana maravilhosa, que vou carregar comigo sempre na lembrança e no coração.

Gostaria de finalizar essas poucas palavras e demonstrar minha saudade pelos amigos que deixei em Barreiras (BA). Parabéns especial a Oldair, papai pela segunda vez, e todos os demais amigos da química, Eduardo, Jacques, Poty, Fábio, Valdeílson, Luciana, Daniel, Erivanildo, e a todas as respectivas esposas e companheiras. Vocês sempre estarão em minhas lembranças, guardados em meu coração. Desejo a todos vocês um final de ano maravilhoso. E aos alunos, todos! (se eu fosse listar todos aqui, seria injustiça) Mas um destaque todo especial vai para minha aluna do coração (é pra você, Diana). Um beijo e abraço enorme em todos!!!!!!!!!!!!!!


Bem... só essas palavrinhas... amanhã posto o início do próximo conto.

domingo, 28 de novembro de 2010

MEMÓRIAS SUJAS (parte final)



Memórias Sujas

  ( . . . )



            Era noite da sexta-feira. Gustavo estava deitado na cama, esperando Débora, que havia ido banhar-se. Ele era puro êxtase, vivendo um momento singular em sua vida. Apareceu sua musa, nua, na porta do quarto. Ele a chamou com os olhos e foi prontamente atendido. Ela deitou-se ao seu lado, fitando-o por alguns segundos. Depois, ele deitou a cabeça em seu colo e sentiu a pele ainda fria.
            — Meu querido — falou ela, com a voz ao mesmo tempo doce e libidinosa — você ainda não me disse onde trabalhava.
            — Não disse? — perguntou ele, questionando a afirmação dela.
            — Na verdade, você ainda não me falou nada de sua vida, apenas o seu nome… Guilherme.
            — É que falo pouco sobre mim…
            — Você é o meu Salvador, gostaria de saber mais ao seu respeito. O que faz?
            — Sou engenheiro, desempregado no momento.
            — Em quê?
            — Ah… mecânico, sou engenheiro mecânico. Mas já tenho um trabalho em vista.
            Ela sorriu.
            — Às vezes parece que estou sonhando. Nunca pensei que trairia o meu marido… É engraçado como as coisas acontecem de repente…
            Gustavo não olhava para ela, tinha os olhos fixos no vazio. Ela continuou falando como se ele prestasse atenção a tudo; mas não, dele ela ouvia apenas monossílabos. De repente, ela disse algo que o trouxe de volta à realidade, como se tivesse entendido tudo que ela falara até então.
            — Devem estar preocupados comigo, amanhã ligarei para minha mãe. Confio nela.
            Gustavo a olhou e sorriu. No tempo que estiveram juntos, não haviam conversado mais que duas frases.
            — Vou até a cozinha, meu amor, quer algo?
            Débora sorriu.
            — Não… ah, traz um pouco d’água.
            Foi a vez de ele sorrir. Antes de desaparecer, ela o chamou:
            — Guilherme — ele se virou, ela continuou: — Eu te amo!
            Gustavo saiu do quarto em direção à cozinha. Abriu a geladeira e tirou a garrafa com água. Pegou uma bandeja de metal e sobre ela colocou um copo e a garrafa. Antes de sair, voltou e, na gaveta, pegou uma faca, que também foi acomodada na bandeja. Seguiu para o quarto. Débora estava deitada, nua, de costas para ele. Admirou mais um pouco sua beleza chispante, envolvente. Ela o percebeu e virou-se para ele. Recebeu o copo e a garrafa e retribuiu com o seu sorriso mais alegre e agradecido. Passou por ela, e enquanto pousava, por trás dela, a bandeja sobre a cama, pegou a faca sem que ela percebesse e a enterrou em suas costas. Ela caiu, largando copo e garrafa, num urro surdo de dor, depois um grito aterrador ecoou. Débora arrastou-se no chão por alguns metros, quase sem força e com metade do corpo paralisado. Virou-se para o agressor, suas poucas lágrimas perguntavam por que. Elas não obtiveram resposta. Gustavo estava parado, taciturno, como se nada demais tivesse feito. Seu semblante era assustadoramente tranquilo. Ela tentou gritar, mas nem um sussurro conseguia mais soltar, seu pulmão havia sido perfurado e enchia-se de sangue, que se precipitava já pela boca. Ele caminhou na direção dela, abaixou-se e, sem piscar uma única vez, esfaqueou-a até que estive morta, o que não demorou muito. Sentou-se ao lado do corpo, o qual esfriava lentamente, e assim ficou até a manha do dia seguinte.
            O dia amanhecera nublado, sombrio, mas não choveu. Gustavo trabalhou o dia inteiro. Primeiro carregou o corpo até a cozinha, arranjou panelas grandes e o picou todo, acomodando as carnes e vísceras, sem os ossos nas panelas. Os ossos, ele os serrou todos, guardando em sacos de lixo; o mesmo fora feito com a pele e a cabeça; tudo bem embalado, para que ninguém pudesse identificar. Essa tarefa tomou-lhe a manhã inteira; à tarde limpou o sangue que se espalhava pelos cômodos, cozinha, corredor e quarto. À noite preparou uma refeição leve, depois, recolheu-se ao quarto limpo e dormiu.

            Compro o jornal. Preciso procurar emprego, amanhã já é outubro. Como o tempo passa rápido. Devo ter problemas de memória, talvez algum tipo de amnésia, é de suma importância consultar um médico, um especialista. Como posso esquecer o que fiz durante mais de uma semana? Preciso realmente ir ao médico, senão nunca conseguirei manter-me num emprego. Ah! aqui tem um: “precisa-se de técnico em informática”. Pronto, amanhã mesmo vou à luta. Se conseguir o trabalho, será o quinto apenas nesse ano. Não posso me descuidar, não dessa vez.


FIM

sábado, 27 de novembro de 2010

MEMÓRIAS SUJAS (parte 3)

Atenção! este trecho contém partes impróprias para menores de 18 anos!



Memórias Sujas

  ( . . . )



            Ela apresentou-se quando estavam no interior do ônibus, a caminho do apartamento dele. Seu nome era Débora e o sujeito que ficara desacordado era o seu marido.
            — Desculpe o meu atrevimento — disse ele. — Ter invadido sua casa, sua vida…
            — Você me salvou! — respondeu ela, entre um soluço e outro. — Como me achou?
            — Eu estava no outro ônibus, antes…
            — Eu me lembro de você.
            — Pensei que não me tinha notado? Fiquei tão impressionado com sua beleza — ela corou neste momento — com o seu semblante triste, intrigou-me. Primeiro eu me perguntei: o que pode fazer tão bela criatura chorar? Quando você desceu, algo me fez ir junto.
            — Foi a Providência Divina! Deus o colocou no meu caminho.
            — É — respondeu ele meio sem jeito.
            A viagem não durou muito tempo. Em poucos minutos estavam entrando no apartamento. Gustavo trancou a porta e acendeu as luzes. Indicou o sofá para ela. Estava calma, não chorava mais.
            — Quer tomar algo?
            — Uma água.
            Ele trouxe um copo d’água e sentou-se ao seu lado. Criaram logo uma afinidade. Ela disse que havia descoberto a traição do marido, a segunda em menos de cinco anos de casamento. Falou ainda da tortura que era viver naquela casa, com a sogra paralítica, que a maltratava constantemente e a intrigava com o marido. Havia-se decidido a terminar o relacionamento, que não aguentava mais os maus-tratos daqueles dois monstros.
            — Minha vida é um inferno! — concluiu ela.
            — Como pode uma moça tão bonita ter-se ligado a gente tão perversa, e como pode já ter sofrido tanto na vida.
            Ela corou, e sorriu pela primeira vez. Gustavo chegou mais perto e com os dedos enxugou as derradeiras lágrimas de sua vida, assim ele prometeu, o que a fez rir ainda mais. Terminou por abraçá-la, que se aninhou confortavelmente em seus braços. Dormiram.
            Passava da meia-noite quando Gustavo despertou. Procurou Débora e não a viu. Levantou-se e escutou algo no banheiro. Aproximou-se lentamente da porta e ouviu o chuveiro ligado. Girou, grau a grau, a maçaneta e abriu a porta com cuidado. Ela se banhava, pela cortina viu sua silhueta. De repente, o chuveiro foi fechado e a cortina aberta. Ele pode contemplar cada detalhe da imagem que se apresentou à sua frente. O corpo esguio, molhado, tentador. Ela o olhava sem reação, atônita. Ele se aproximou um pouco mais. Ela respirava ofegante e seus seios arfavam, acompanhavam sua respiração. Os cabelos molhados, negros, colados na pele alva, ardente. Contemplou-a com desvelo, suas curvas generosas, suas carnes abrasadoras. Mirou seu sexo com desejo e cuidado. Ela sentia seus olhos lhe percorrendo o corpo, centímetro a centímetro, e aquilo a estava deixando excitada. Ele se aproximava e ela respirava ainda mais ofegante, e cada gota d’água em seu corpo parecia evaporar, deixando-a pronta para ele. Entreabriu a boca e recebeu dele um beijo ardente que a encheu de gozo e paixão. Despiu-se inteiramente das roupas que lhe atrapalhavam os movimentos, sentiu ainda o corpo dela molhado, não mais pelo banho, mas pelo prazer que nela ele provocava. Abraçou-a e encostou-a na parede. Beijou-lhe os seios, ambos, com solicitude, voracidade, amor. Deslizou a língua em seu amplo e jovial corpo, que ardia, e sentiu todos os seus sabores, as delícias da mulher. Subiu e mordiscou-lhe os bicos róseos, enquanto tinha os cabelos acariciados por ela que fremia de prazer. Não mais aguentando, ela o ergueu e tomou o seu membro, introduzindo em seu sexo lúbrico. Ele sentiu seu calor vaginal e urrou numa mistura de ânsia e prazer. Principiaram umas longas séries de gemidos e pequenos gritos lascivos. Ela cruzou as pernas nele, enquanto a segurava pelas volumosas e firmes nádegas. O movimento frenético fê-los gozar logo, tendo ele despejado seu sêmen no interior dela. Ela o beijou com carinho e ternura. Tomaram um longo banho juntos.
            Era alta madrugada quando se deitaram na cama. Estavam sem sono. Passaram o resto da noite e dos três dias seguintes trancados no apartamento, alimentando-se de sexo. Fizeram de tudo, concebível e inconcebível; percorreram cada canto e cômodo do apartamento; testaram e inventaram posições; descansavam apenas quando os corpos estavam exauridos de forças, extasiados pelo gozo.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

MEMÓRIAS SUJAS (parte 2)

Sem mais delongas, porque a segunda parte é mui longa...




Memórias Sujas

  ( . . . )




            O sol brilha com intensidade naquela manhã de terça-feira, em pleno mês de setembro. O sol entra com liberdade entre as frestas da persiana da janela do quarto 502, no bairro da Boa Vista. Vê-se, dali mesmo, outros prédios e as copas das muitas árvores circundantes, eram mais no passado.
            O sol desenhava listras no corpo do homem que ainda dormia, era um efeito até certo ponto engraçado, e pela posição do homem, um olho estava claro, iluminado, e o outro não, escurecido. Gustavo não suportou por muito tempo aquela claridade em apenas um de seus olhos e despertou de seu sono pouco recompensador. Fora dormir tarde mais uma vez, mexendo no computador.
            Levantou-se e dirigiu-se ao banheiro, e após uma longa mijada, escovou os dentes.
            — Puta que o pariu! — bradou, em baixo volume, ao tomar o relógio na mesa de cabeceira, à direita da cama. — Atrasado de novo!
            Correu o apartamento inteiro, tudo em ordem. Tomou um pouco de leite diretamente da caixa e foi tomar um banho rápido. Em poucos minutos estava passando pela portaria, cruzando a avenida e dirigindo-se ao ponto de ônibus. A viagem durava pouco mais de meia hora, e nesse período, em pé ou sentado, sua cabeça ficava vazia.
            Trabalhava numa repartição pública, mas não era funcionário. Fora contratado como prestador de serviços, no caso, para informatizar toda a seção, dando cursos de internet e rede. Já fez metade do trabalho, mas caíra nas graças do chefe e ficaria trabalhando lá, depois de encerrado o contrato. Sempre era bom ter um técnico em informática do seu gabarito.
            Gustavo havia completado 30 anos há pouco mais de mês. Não tinha parente vivendo próximo, os pais moravam no interior de Pernambuco, enquanto que os irmãos moravam no sul. Há quase dez anos vivia sozinho.
            O tempo corria sossegado, a viagem fora tranquila como todos os dias. Do ponto onde descera até o local de trabalho eram poucas quadras; subiu os nove andares do velho prédio e enfim adentrou no andar onde ficava a seção onde trabalhava. Havia muita gente àquela hora, pessoas acostumadas ao barulho das teclas chocando-se contra o papel, ritmado e frenético, estavam perdidas diante das telas dos microcomputadores. Dirigiu-se à sua mesa. No caminho, fora interceptado por um homem baixo, de óculos redondos e armação de metal descascado, pouco calvo e um bigode amplo (ridículo na opinião de Gustavo) que lhe escondia o lábio superior.
            — Gustavo — chamou ele, com a voz grave. — Isso são horas? É o segundo dia!
            — Calma, seu Gonçalves…
            — Como posso ter calma? — disse ele, com a voz um pouco rouca, irritante. — Venha até a minha sala.
            Os dois caminharam sob poucos olhares curiosos. Entraram numa sala pequena. O chefe fechou a porta e acendeu um cigarro. Gustavo sentou-se.
            — Desculpe, chefe.
            — Não me chame de chefe, rapaz, sabe que não gosto.
            — Qual é!
            — Tenha modos!
            O velho sentou-se do outro lado da mesa e encarou-o firmemente. Tornou a falar:
            — Gustavo… Você é um excelente profissional. Sabe disso, já lhe disse uma porção de vezes. Disse até que segurarei você aqui após o encerramento de seu contrato, não foi? E você sabe muito bem que um trabalho seguro está difícil nos dia de hoje, não sabe?
            O outro assentiu com a cabeça. Seus olhos continuaram fitando o patrão, mas seus pensamentos voaram longe. Era sempre assim, quando alguém começava a falar compulsivamente, sua atenção minguava, desaparecia. Aos poucos os olhos ganhavam vida e voltavam a mexer-se. O patrão, que circulava pela saleta, tornou a sentar-se. Concluiu:
            — Tenha juízo, rapaz. Agora pode ir.
            Gustavo se levantou, sorriu e saiu. Sentou-se em sua mesa, ligou o computador e pôs-se a trabalhar.
            O dia passou logo. Dizem que quando se ocupa a mente com assuntos diversos, as horas correm, e nada melhor para isso ocorrer que o trabalho. Da janela ouvia-se o barulho da rua e via-se o céu, e as pessoas seguindo suas vidas incólumes.
            Gustavo desceu com colegas. Era noite, sem nuvens, sem brisa. Andou passivamente até o ponto de ônibus, carregando sua pasta. Havia poucas pessoas no local, e quando veio a sua condução, subiu só. Passava das sete e meia. O ônibus não estava cheio, mas havia apenas um lugar disponível. No outro assento encontrava-se uma mulher. Gustavo olhou-a brevemente (enquanto se sentava), não pôde ver seu rosto, ela estava com a atenção para a rua. Sentou-se enfim, sem dar maiores importâncias.
            Após alguns minutos de viagem, com o canto dos olhos, olhou a moça. Discretamente virou o rosto, mas não conseguiu vê-la, apenas um pouco de seu perfil. Era bela! Parecia não ser muito alta, tinha a pele alva, os cabelos negros e lisos, presos de tal forma que se podia ver sua nuca e algumas poucas sardas. Distinguiu ainda os lábios rubros e encorpados; numa rápida avaliação daria vinte e cinco anos, talvez pouco mais, talvez pouco menos. A curiosidade de Gustavo floresceu, não pela beleza singular e expressiva da misteriosa mulher, mas pelas lágrimas que ele descobriu em seus olhos. Sim, ela chorava copiosamente, mas sem maiores alardes, por isso tinha o rosto virado para fora, nas mãos um lenço rosa amarrotado era utilizado para secar-lhe o rosto de vez em quando. Aquilo o comoveu, fazendo com que ele deixasse de contemplar o resto de seu virtuoso corpo, as pernas alvas e torneadas, e principalmente, o decote de sua blusa, generosamente aberto, deixando à mostra seu seio direito, escondido pelo sutiã.
            Seus pensamentos se esvaíram completamente, não conseguia nem parar de olhá-la. Ela, em momento algum, o percebeu. Ele não a tirava do pensamento.
            Poucas paradas antes da sua, a soturna moça levantou-se, pediu licença e dirigiu-se à frente do ônibus. Naquela fração de segundo, Gustavo contemplou inteiramente sua beleza entristecida, seus olhos se cruzaram com a velocidade de dois raios de luz, todavia, pelo menos para ele, foi o tempo do infinito. Ela o fitou e talvez lhe tenha rogado ajuda (assim interpretou). Tanto que, após ela descer, e o ônibus já se ter deslocado um pouco, ele levantou-se e precipitou-se a gritar para que parasse o veículo.
            Ela andava ligeiro, ele a seguia a certa distância. A moça nem sequer desconfiava da presença dele, estava tão aturdida em suas dores que, se um raio lhe caísse ao lado, nem assim perceberia. Gustavo tinha a respiração forte, ofegante, suava deveras, o coração acelerado. Acompanhava-a sobre os mesmos passos, a custo, vencendo seus medos. Entrou com ela numa rua estreita, escura, mais ainda com os arbustos cobrindo todo o percurso, impedindo que a iluminação artificial cumprisse seu papel. A rua era estreita e comprida, com o calçamento irregular. Não precisava se esconder, ela nem olhava para trás, ele era um vulto, ela também. Seguia reto, ereta, decidida. Parou defronte a uma casa de muro baixo, de um verde-musgo envelhecido, do lado direito da rua. Entrou. Gustavo aproximou-se, não viu carro na garagem. Aproximou-se o suficiente para ouvir uma discussão. Seu coração palpitava acelerado, o medo que sentia aflorava com o suor, mais ainda quando empurrou o portão entreaberto, que rangeu baixo, e avançou no jardim de grama malcuidada. Pouco se via das lajotas que conduziam até a porta de entrada. Gustavo postou-se embaixo da janela. O barulho no interior da casa continuava, vinha de dentro, talvez do quarto, e ele distinguiu a voz de um casal. Ele levantou a cabeça e olhou rapidamente o interior da casa. Viu móveis velhos, daqueles que existem há pelo menos duas gerações, uma televisão de um modelo bastante antigo, entre diversos outros adereços. De quem seria aquela casa? A moça lhe pareceu nova demais para preferir tantas antiguidades. Olhou para cima e viu um ventilador de teto ligado, girando muito lentamente. À esquerda viu uma cadeira de balanço, muito parecida com a que sua falecida avó um dia tivera. Abaixou-se e tentou pensar com clareza no que estava acontecendo. O suor escorria-lhe ainda pela fronte e com as costas da mão retirou o excesso. Soprava uma brisa fresca, brisa noturna. As mãos tremiam um pouco. Tornou a escutar gritos e objetos quebrando. Levantou-se e não viu nada pela janela, a briga vinha dos fundos da casa. Olhou em volta e viu, no seu lado esquerdo, um portão, acesso para um beco escuro e estreito. Abriu-o, e este rangeu alto, o que fez o coração de Gustavo acelerar ainda mais. Caminhou lentamente, tateando as paredes úmidas. Havia uma luminosidade no fim do beco, os fundos da casa. À medida que andava, a intensidade dos gritos aumentava, e já se entendia o que antes era uma confusão de palavras. Chegou no quintal, estavam os dois na área de serviço. Viu um homem alto, moreno, muito forte, de costas para ele. Do outro lado, sentada num banco, a triste moça que ele seguira. Parecia mais triste ainda, tinha o olhar lúgubre, desconsolado; meteu as mãos no rosto e chorou compulsivamente. Pelo que Gustavo pode compreender, aquele era o marido, e a agredia ferozmente. Vez ou outra ela levantava o rosto e tentava proferir algo inutilmente. Gustavo permaneceu abaixado, encoberto pelas sombras. Subitamente, o nervosismo passou, os suores sustaram. Procurou compreender o que se passava entre o casal. Ele apenas a xingava, despejava ofensas sobre ela. Num certo momento ela despejou:
            — Pare! — gritou com força — Chega! Pare de me tratar como culpada. Você é um monstro! Vil… inescrupuloso… baixo…! O culpado é você, sua amante. Ah, como pude me enganar tanto. Você e sua mãe, os dois, iguaizinhos, são escória…
            — Cale-se, sua cadela! — Gustavo, atônito, ouviu o desferir de um tapa. Cerrou o punho e olhou a cena. A mulher estava caída, cobrindo o rosto, o marido bufava. Ela levantou-se, guerreira:
            — Vou embora, agora — disse ela, serenamente. — Acabou, dessa vez acabou!
            Ele enfureceu-se mais ainda, urrou de ódio, endemoninhado. Gustavo observava atentamente, transtornado, na iminência de interferir. O marido pegou-a pelos braços e a atirou no chão, desferindo um chute violentíssimo na sua barriga. A última coisa que Gustavo ouviu foram os gritos de dor e agonia da pobre, quase desfalecida, mulher. Era a gota d’água. Ele correu para cena, na direção do agressor, que se assustou com o estranho surgindo sobre ele. Não houve uma palavra, Gustavo derrubou-o no chão e socou-o até quase a morte. Quando viu que o marido estava desacordado, mas ainda assim respirava, a moça pegou seu salvador pelo braço:
            — Me ajude! Me tire daqui!
            Ele a olhou seriamente, penetrou no fundo de sua alma e sentiu seu desespero. Puxou-a para si, abraçando-a forte.
            — Vamos, vou-lhe tirar daqui.
            Os dois saíram pelo beco. Ela fugiu do jeito que estava, apenas com a roupa do corpo, sem documentos, sem nada. Naquele momento ela queria apenas livrar-se de seu agressor, seu algoz. Gustavo a carregava, segurando sua mão. Correram pela rua escura e deserta, não falavam, não respiravam.

domingo, 21 de novembro de 2010

MEMÓRIAS SUJAS (parte 1)

O conto que vou começar a postar foi um dos primeiros que fiz em minha curta carreira como escritor. Devo frisar que contos não são meus fortes, porém são mais práticos, e de rápido desenvolvimento e conclusão. Ele foi escrito de forma contínua, e não em partes como o conto "o poeta". Contudo, para facilitar a leiturar (e criar expectativa, claro!), irei dividi-lo em partes. Sem mais delongas, segue...


Memórias Sujas

 

            Sinto-me tão só! O corpo dolorido me faz querer ficar na cama mais umas horas. É impossível! Não me posso dar o luxo de chegar atrasado na repartição pelo terceiro dia consecutivo. Definitivamente não posso mais ficar acordado durante toda a madrugada, preso ao vício da internet.
            Pela janela do quarto vejo que o sol vai alto, provavelmente seriam mais de oito horas. Ah! Levanto-me com a dificuldade de quem levanta uma tonelada. Passa das oito e meia. Mais um dia com menos quatro horas de sono. Desse jeito, vou-me acabar.
            O chuveiro me acorda, a água gélida agride meus ossos e minha carne. Por que todo o meu corpo dói? Mais parece que levei uma surra. A zonzeira continua, os meus reflexos estão lentos, choco-me contra a pia do banheiro e a dor não é maior do que a que eu sentia.
            A cozinha cheira a podre (alguém já viu coisa podre cheirar?) Fede! Não me lembro de ter deixado tudo tão desarrumado; as minhas memórias estão vagas e não faço a mínima questão, agora, de lembrar qualquer coisa. Mas o que faz feder tanto assim? Havia muitas moscas, sobre a pia apenas copos sujos, pratos sujos, facas sujas… Será que fiz algo para jantar e não me lembro? Sobre o fogão, três panelas tampadas. Destampo-as… Ah! O vômito vem-me à boca instantaneamente, mal dá tempo de correr para a pia. Nossa, tem algo podre naquelas panelas. Volto, com uma toalha no rosto, e vejo que esqueci as carnes na panela e elas apodreceram. Acho que me recordo, ontem tratei carne, isso explica as facas sujas e sangue no balcão. Mas estragariam com tão pouco tempo? Arrumo sacos plásticos de lixo e despejo o conteúdo das panelas neles. Amarro-os bem e os coloco junto à porta da cozinha. A próxima providência é desinfetar todo o ambiente. É o jeito, chegarei atrasado mais um dia… Paciência! mas não posso deixar meu apartamento naquele estado.
            Em menos de uma hora a cozinha está limpa novamente, o odor fétido foi-se quase inteiramente, ficando apenas o aroma de lavanda do detergente que utilizei. Percorro os outros cômodos do apartamento, em busca de mais sujeira. A bagunça da casa era natural, resolvo dar um jeito em tudo, e arrumo tudo com uma disposição poucas vezes vista. Deixaria para ir ao trabalho à tarde, após o almoço, e com o espírito pronto para as broncas do chefe.
            Passa um pouco do meio-dia quando desabo no sofá com uma xícara de café na mão. Percebo que a secretária eletrônica está repleta de recados. Mas como, se sempre escuto os recados antes de dormir? Além de tudo, é estranho eu não ter ouvido o telefone tocar durante a noite. Aciono o botão, busco o último recado. A voz era grave, rouca, conhecida, do meu chefe:
            — Gustavo? Sou eu, você deve saber… Escuta aqui, rapaz, é a última vez que ligo para você. A última, entendeu? É definitivo! Passe, quando resolver voltar, no meu escritório… Ah, e tem mais: não me venha com desculpas mirabolantes não, uma semana sem aparecer é justa causa!
            A fita para e fico atônito. Retrocedo e encontro dezenas de recados, todos dando pela minha falta. Falta? Se ontem mesmo fui ao trabalho. Ligo o computador, está lá: quinta-feira, 27 de setembro… Como?! Se ontem foi terça. Será que dormi um dia inteiro? Entro na minha pasta, sei que baixei um programa da internet, ontem de madrugada, e tem registrado a data. Aqui, terça-feira, 18, 00:42. Mas… pensei que tinha sido hoje, de madrugada… Mas como? Semana passada? Minha cabeça não compreende, e começa a doer, algo de estranho, muito estranho…
            Vou ao meu quarto, uma camada de poeira cobre a cômoda, como se a não usasse há dias. Olho em volta e não vejo nada, não enxergo nenhuma explicação, nada que me possa esclarecer as idéias. Tenho a lembrança viva, ontem foi terça, e entrei na internet durante a madrugada, deveria ter registrado quarta. Mas não há registro. Cheguei atrasado na segunda, na terça e hoje… mas hoje é quinta, uma semana depois. Não entendo, agora é meu corpo que dói. Deito-me na cama e fecho os olhos, não posso perder o emprego, é o quarto neste ano. É melhor dormir, talvez relaxando eu consiga encontrar alguma explicação para tudo isto.