domingo, 17 de abril de 2011

Primeiras Memórias - parte 1

Enfim, como eu disse há pouco, segue a primeira parte do conto. Recomendações que eu faço, se não tiver o estômago forte, leia com moderação, e se for à noite, leia com as luzes acesas. Brincadeiras e piadas sem graça à parte, segue. Boa leitura a todos e aguardo comentários!


Primeiras Memórias


I


            Eu parecia estar atrasado. Olhei no relógio apenas para constar, mas não, não estava atrasado. O ponteiro indicando meia hora a mais além do horário marcado serviu para mostrar que a culpa não era minha. Eram quatro e quinze da tarde, e a sessão deveria ter começado há algum tempo, o que de certa forma me causava um desconforto tremendo, visto que eu não queria estar ali de forma alguma. Havia mais duas pessoas na antessala: a secretária, uma senhora muito gorda, com um sinal horrível no canto esquerdo do que seria um protótipo de bigode, e um homem, esguio, mais velho que eu apenas alguns anos. Folheava uma revista com completo desinteresse, apenas para passar o tempo. Eu sacodia a perna, bufava de vez em quando, queria me fazer presente, e fazer ciente a minha angústia com aquela demora. Mais um tempo e olhei novamente para o relógio amarelado da parede: quatro e meia. De repente toca o telefone e a mulher atende. Além de tudo, ela era muito feia, pensei.
            — Seu Gustavo, o senhor pode entrar agora — falou ela, após pousar suavemente o telefone, o que achei um tanto contrastante com sua aparência rude.
            — Obrigado — disse ao passar por ela, observando as gotas de suor que rolavam de sua testa a despeito do frio que fazia naquela sala, o ar refrigerado no máximo.
            O consultório era simples, uma pequena iluminação se fazia presente, apenas para que não esbarrassem nos móveis escuros. A janela empoeirada dificultava ainda mais a passagem dos raios solares.
            — Boa tarde, doutor — falei, sentando-me na poltrona nada confortável de sempre. Caprichei na entonação.
            — Seu sarcasmo é tão peculiar, Gustavo. Será que nunca vai mudar?
            — Da mesma forma que seu consultório é escuro. Vamos, me fala, é para criar um ambiente, não é?
            — Se nunca aceitei suas provocações antes, porque aceitaria agora?
            — Mas o que eu falo é para o seu bem, doutor. E com certeza, se me ouvisse, melhoraria e muito os seus negócios. A propósito, quem é alérgico não aguenta muito tempo naquela recepção. Fede a mofo!
            — Você já disse isso antes, está ficando repetitivo.
            — Ah… E sobre a sua secretária…
            — Por favor, Gustavo, já lhe pedi da última vez, respeite a Olga.
            — Tsc, tsc… Aposto que você anda comendo ela.
            — Chega, Gustavo! Chega! — esbravejou o médico, perdendo o controle pela primeira vez. Respirou fundo e voltou a falar no mesmo tom anterior. — Acho que já perdemos muito tempo. Deveríamos começar logo.
            — É — suspirei, recostando-me na poltrona dura. Ele pegou uma pequena pasta, tirou um bloco e sentou-se diante de mim. — Vamos acabar logo com esse suplício.
            Havia dois meses que fazia análise, ou algo semelhante. Foram cinco sessões antes dessa, o cúmulo do suplício. Devo admitir que no início pensei que seria sossegado, tranquilo, que aquela imposição eu poderia tirar de letra. Doce ilusão! O desgraçado sabia como extrair informações, fazer com que eu revelasse os mais íntimos e sórdidos segredos. Mas acredito que, além de algumas pequenas perversões, ele nunca chegou ao âmago da questão, do porquê eu estar ali. Brancos, lapsos de memórias, além nada mais foi descoberto, mesmo nas sessões de hipnose. Contudo, toda a devassidão da minha vida, principalmente na infância, na relação com os meus pais, tudo ele descobriu. Não sei por que o escolhi, ou na verdade, escolheram-no como meu psiquiatra. Na minha singela opinião, seria o menos indicado. Enfim, cá estou, deitado no divã, trocando farpas com o doutor.
            — Então — começou ele. — Vamos retomar de onde havíamos parado? Quer me contar quando você começou a ter esses apagões, esses esquecimentos? Já conversamos sobre a sua vida, suas frustrações, sua falta de amigos, a falta de sucesso profissional. Acho que está na hora de buscarmos o porquê disso tudo ­­— O filho da puta sabia bem como colocar um pra baixo, sempre foi assim. Nada fazia além de balançar a cabeça. Eu relutava em aceitar aquele tratamento, pois eu achava que não havia resultado possível. — Então, Gustavo, me diga quais as suas primeiras lembranças, suas primeiras memórias.
            Ele notou minha tensão, levantou-se e fechou a cortina vermelha, deixando a penumbra avermelhada. Cor de sangue. Sentou-se em sua cadeira e me mandou relaxar mais e mais. Sua voz parecia feita de uma nota só, sem alterações, com pausas bem colocadas. Era quase um mantra. Proposital, pensei. E fui ficando cansado, era o cansado não de apenas um dia, talvez de uma vida. Seria aquele o momento então que eu deveria realmente contar a verdade, abrir meu coração, revelar toda a sujeira de minha alma? Mas onde tudo começou? Qual minha primeira memória?

2 comentários:

Claudiana disse...

Quer saber, você é brilhante, que texto maravilhoso. Você é um exímio escritor, chama o leitor para a narrativa e então nos invade com as suas idéias, o jogo que faz com seu texto é extraordinário. Você não deixa o leitor perder os acontecimentos. Tenho a ligeira impressão de que aprenderei bastante com vc, pois é raro ver um texto com tamanha qualidade, você é soberbo, meu amigo, um grande abraço.Parabéns!!!

Ricardo Lima Guimarães disse...

Nossa... Que belas palavras! Fico feliz em as receber. E prepare-se, pois é apenas a primeira parte da história... espero que as demais não desapontem meus queridos leitores!