domingo, 6 de janeiro de 2013

Um conto e o encontro - parte final



            Rodrigo abriu a porta de sua casa para Felipe, a esposa e os dois filhos. Era noite de Natal. Os dois amigos, depois de algumas doses de uísque caminharam pelo amplo jardim. Luzes enfeitavam quase todas as plantas. Uma decoração atraente.
            - Se existe uma coisa da qual eu não abro mão é de morar em uma casa. Um jardim bem cuidado faz toda a diferença - Felipe concordou silenciosamente. O amigo continuou: - Você está diferente. Passou a noite toda calado. Nem pudemos conversar sobre o curso. Como foi? Gostou de ser professor?
            Felipe respirou fundo.
            - Você não faz ideia do que me aconteceu esta semana.
            - É… não faço mesmo. Se você não me contar, vou continuar sem saber.
            - Conheci uma garota. Uma aluna…
            - Puta que o pariu! - quase gritou, no meio do jardim vazio. Sentou-se em um banco. E depois em voz baixa, sussurrou: - Que história é essa? Que merda você fez?
            - Como assim? Que merda eu fiz? Você que me colocou nessa situação…
            - Ah! Fala sério! E você é um menino indefeso… Espero que você não tenha feito nada que deponha contra mim - e antes que Felipe tentasse se explicar, continuou: - Você sabe que dá a maior merda esta história de professor e aluna. Já aconteceu isto lá no departamento. O maior rolo! Sei que é a maior hipocrisia, pois é todo mundo adulto, mas ninguém quer saber disso.
            - Só que eu não sou professor! E não estou preocupado com as questões éticas… Me incomoda o fato de ter traído Ana. Mesmo que o meu casamento já não esteja às mil maravilhas há algum tempo, isso não justifica.
            - E por que não pensou nisso antes?
            - Porque tudo na teoria é mais fácil. Sinceramente, não há desculpa… não dá para colocar a culpa no casamento, na chuva, na novidade…
            - Na juventude da garota, não é? Porque aposto que era novinha. Olha, eu conheço todas as alunas que estavam matriculadas. Há umas bem bonitinhas e bem safadinhas também. Muitas doidas para pegar um cara boa pinta, casado. Você não faz ideia o quanto tenho que me virar para não cair mais em tentação. A Lúcia já me perdoou uma vez, mas tenho certeza que de uma segunda não passo. Por isso é vigilância total. Mas me conta como aconteceu.
            Felipe então narrou todos os acontecimentos da última sexta-feira. Contou sobre o conto, mas também de uma troca de olhares que acontecia desde o primeiro dia. Mas foi o conto que despertou nele aquela paixão avassaladora, incontrolável.
            - Se não fossem as palavras dela, acho que nada teria acontecido.
            - Que canalha… na minha sala… - e começou a rir compulsivamente. - Mas já foi, meu amigo. Você é humano, sinto dizer: sente tesão e comete erros. Aprenda com eles! Mas, quero que você me diga quem é a “heroína” que o tirou do celibato matrimonial.
            - Eu não deveria dizer… Mas acho que devo isso a você. Me prometa que não dirá nada! Serei duplamente canalha por isso.
            - Deixa de enrolação… Falando serio, você me conhece, sabe que nunca direi nada a ninguém.
            - Ela se autodenominava Rosa, mas seu nome era… - e sussurrou em seu ouvido.
            Rodrigo ficou mudo, pensativo. Levantou-se, bebeu mais um pouco do uísque.
            - Não, não… você deve estar enganado, se confundiu.
            - Por quê?
            - Porque não existe essa pessoa no curso. Não mesmo. Talvez de outro curso…
            Felipe permaneceu sentado, mas sorveu o resto do líquido em seu copo. Estava confuso. Realmente o nome dela não apareceu na listagem oficial, como os nomes de alguns outros alunos que se inscreveram de última hora. Sabia do nome porque ao final da primeira aula, em conversa com alguns, perguntou quem eram, o que faziam, em que período estavam. Fez a sua descrição física minuciosa.
            - Não, Felipe. Essa garota é de outro curso. Eu não faço a mínima ideia de quem seja. E com certeza não é, nem nunca foi minha aluna. E sabe de uma coisa, acho que é hora de encerrarmos esse assunto. E trate de esquecer essa garota. Você nunca mais vai vê-la, foi um caso, é passado. Vamos sim aproveitar o resto da noite. Afinal, hoje é Natal!
            Felipe assentiu com a cabeça. Não queria mais falar sobre o assunto também. Estava confuso. Quem era ela? Quem era aquela garota? E antes de entrarem na casa, mas já ouvindo as crianças brincando, as esposas conversando, Felipe tocou no ombro do amigo.
            - Sabe o que me veio na mente agora?
            - Quê?
            - A história de Umberto Eco, sabe? O Nome da Rosa…
            - Muito apropriado, muito apropriado…
            Entraram os dois. A vida seguiria como se nada tivesse acontecido.

            Felipe acordou cedo como fazia todas as manhãs. Ligou o notebook e a caixa de entrada indicava uma mensagem nova. Quem mandaria um e-mail no primeiro dia útil do ano. O mensageiro era desconhecido. Subitamente seu coração parou e um arrepio correu sua espinha. Em anexo havia um documento de texto. No texto do e-mail apenas os seguintes dizeres:

Um novo conto para o meu professor!”
 


7 comentários:

Maísia Guimarães disse...

Conto muito bem escrito: objetivo, de rápido entendimento, aguça nossa curiosidade. Creio que atingiu seus objetivos.
Coitado do protagonista Felipe, não conseguiu resistir à tentação e parece-me que vai ser difícil livrar-se da "aluna" Rosa. No primeiro dia do ano já lhe enviou outro conto por e-mail...!!! Bem, só o autor saberá...

celso ackermann disse...
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celso ackermann disse...
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celso ackermann disse...
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celso ackermann disse...
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celso ackermann disse...
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Kátia Cunha disse...

Ricardo, está muito bom! Vamos ver o que vai acontecer com Filipe? Um abraço Katia Cunha